O INTIMISMO SENTIMENTAL

 

 

No final do século 19, auge do romantismo amoroso, podemos ter a oportunidade de visualizar um pouco do que sem dúvida pode ser denominado como cultura do intimismo sentimental. No que se constituía tal cultura? Na idéia fundamental de valorização do campo dos sentimentos humanos, sentimentos esses que para existirem exigiriam uma ampla disciplina dos sujeitos, no que tange primordialmente ao adestramento do que era representado pelo suposto perigo do império dos sentidos, do campo dos instintos, do demônio interno, das sensações corpóreas menos “nobres”.

 

Sensações essas que, em última instância, deveriam ser de muitas formas drenadas para alimentar muitos dos ideários da época, principalmente em torno dos sentimentos, da arte, da ciência, enfim todo um conjunto de atividades que Sigmund Freud, fundador da psicanálise, passou a pensar sob o conceito de sublimação, onde a sexualidade seria posta a serviço de outros encaminhamentos, culturalmente aceitos, onde se colocar e se expressar.

 

Norbert Elias e Peter Gay, dois grandes autores que buscaram mapear em seus estudos algo do que constituía o esforço cultural romântico, no sentido de transformar o chamado homem “bruto” no civilizado burguês europeu que marca os grandes romances da época, figurando o homem atormentado em uma trama emocional conflitiva interior, sacralizada, que seduzia os leitores que encontravam nesse imaginário um pouco de sua própria história, ou do que ela poderia ter sido, sendo contada. Contada de uma forma que não os comprometesse, na medida em que no romantismo amoroso uma certa clandestinidade do que se vivia internamente era a condição sem a qual a aura de mistério sobre os poderes do amor e do desejo não poderia existir...

 

O Romantismo, em sua valorização das paixões constituintes do sujeito humano foi sem dúvida um dos pais da psicanálise, que teve dentre outros progenitores históricos o Iluminismo, em sua busca de uma Razão que nos desse o esclarecimento do que nos ocorre. A psicanálise é feita de paradoxos desde o berço, e isso também a marca em termos de sua grandeza.

 

À cultura romântica sentimental podemos hoje contrapor o que devemos, por suas particularidades, denominar cultura das sensações, designando toda uma sorte de fenômenos da modernidade que possuem a peculiaridade de buscar marcar o corpo como principal referente do processo de tornar-se humano.

 

Em outras palavras, centrando no corpo o que nos faz humanos a cultura das sensações também aponta para o que nele pode nos retirar tal estatuto, fazendo com que muitos dos sofrimentos psíquicos hoje tenham na representação psíquica do corpo sua principal fonte, corpo esse não mais inocentado como na recomendação da psicanalista francesa Piera Aulagnier, mas como ameaça sempre persecutória aos sujeitos.

 

A dinâmica das sensações parece prover um campo de experiência aos sujeitos hoje não mais atrelada à busca cultural romântica do advir do sujeito dos sentimentos em sua relação com o outro, mas pelo contrário, prometer que não precisaremos mais de tal presença.

 

Hoje, podemos ser moralmente tolerantes com as pequenas faltas; perdulários em relação à construção de ideais que nos norteiem em nossa relação com o mundo e a vida em sua imprevisibilidade; podemos achar que certos meios possam de qualquer forma justificar certos fins; acreditar que um mal necessário seja sempre necessário; que tudo isso é absolutamente aceitável desde que nosso mapeamento obsessivo dos metabolismos corporais se mantenha intacto em sua disciplina e a taxa de colesterol não se desequilibre!

 

Acreditamos assim que o máximo a que devemos aspirar seja algo da ordem de um conjunto de receitas de bem-estar corporal que possam prometer, sob a idéia de qualidade de vida, o encontro com o sentido de si. Será?..

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